Cel. Fabriciano, 26 de maio de 2024

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14 maio
Imagem: encenasaudemental.com

Preguiça (acídia) X Laboriosidade/Disposição: reflexões sobre pecado e graça

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Sete Semana com Jesus/ 2021
Pecados Capitais/ Virtudes capitais
Semana 06 – Preguiça (acídia) X laboriosidade/ disposição

Inspiração: atentar para as armadilhas espirituais que nos coloca a sociedade hedonista, do prazer acima de tudo e das conquistas e benesses corporais em detrimento do crescimento integral da existência humana.

Para começo de conversa…

Vamos primeiro esclarecer umas coisas…

Para a Igreja, desde sempre, o sexto pecado capital é a acídia, que é diferente da preguiça como acostumamos a dizer. O uso da palavra acídia não e corriqueiro e popular, e isso faz com que se esvazie o sentido desse pecado, justamente por que o termo preguiça carrega hoje muitos sentidos diferentes, alguns até positivos. Recuperar o ermo acídia para tratar dessa inação do ser humano, dessa fraqueza espiritual, dessa tristeza da alma, nos parece urgente e necessário.

O empobrecimento do léxico moral é, hoje, um dos mais agudos problemas pedagógicos, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão da realidade moral. Faltam-nos as palavras, faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade.

Preguiça é uma palavra deturpada pela lógica capitalista e converteu-se na omissão do desejo de trabalhar e produzir. Os que se opõe ao trabalho incessante e contínuo são taxados de preguiçosos, e muitas vezes, a falta de ascensão social e econômica é taxada de preguiça. Os pobres, nesse sentido, são preguiçosos, por isso, continuam sendo pobres. Essa lógica inverteu o sentido real do pecado da acídia (ou preguiça), que na verdade tem ligação com a tristeza de uma alma abatida pelo total desânimo da vida do que pela falta de desejo de trabalhar. A preguiça verdadeira, ou a acídia é um estado de ausência, de omissão, de completa tristeza do mundo.

Etimologia

É o Latim ACEDIA, “preguiça, inércia”, do Grego AKEDÍA. A Acídia é uma tristeza que deprime o ânimo do homem de modo que nada lhe agrada, é uma acidez interna, a queimadura interior do homem que recusa os bens do espírito. E a tristeza não só é já em si mesma um mal, mas fonte de outros males. Para Santo Tomás, essa preguiça significa muito mais do que a falta de vontade de um agir ativo, não é so inação para o trabalho, é inação para construir um sentido para a vida.

Em sua dimensão que produz inação, a acídia caracteriza-se pela veemência da tristeza, que imobiliza o homem, retardando a ação, daí que S. João Damasceno afirme ser uma tristeza agravante, pesada, isto é, paralisadora. Há dois vícios capitais que são tristezas: acídia e inveja. A acídia é a tristeza pelo próprio bem espiritual; a inveja, pelo bem alheio. Tomás comenta que o oposto da acídia seria o dom da fortaleza, o esforço por não se deixar dominar por essa acidez da alma.

Citações

“Não sei se quero descansar por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir” (Clarice Lispector).

“Não fazer nada é o trabalho mais cansativo do mundo pois você não pode se demitir e descansar” (Thomas Paine).

Definição do pecado

Santo Tomás ensina que, o termo “capital” deriva do latim caput: cabeça, líder ou fonte, o que quer dizer que os sete vícios capitais são aqueles que dão origem à várias outras faltas graves. O vício capital compromete muitos aspectos da conduta, é uma restrição à autêntica liberdade e um condicionamento para agir mal.

Segundo São Tomás de Aquino, a acídia, a preguiça da busca espiritual, se recusa em aceitar o esforço necessário para a união com Deus. Quando a pessoa fica acomodada e passa a deixar que os outros tomem todas as decisões morais e espirituais por elas. Tal atitude, fruto da falta de amor ao bem, resulta em danos diversos, como a tristeza, a perda de tempo e o desinteresse pela vida.

A náusea pelas coisas espirituais e a apatia nos bloqueiam; e não mais temos vontade de rezar, de meditar, de celebrar a Eucaristia, de ler bons livros, de participar dos sacramentos, da catequese, da vida comunitária, de fazer obras de caridade…

A acídia é um vírus que corta as pernas e pouco a pouco vai sugando a energia, até levar a pessoa a uma lenta morte espiritual, por asfixia, por paralisação progressiva, depois de tê-la conduzido aos prazeres mais vulgares e estomacais, e a uma triste depressão espiritual, cheia de insatisfações e de criticas a tudo e a todos.

É um vazio que sentimos por dentro, que nos paralisa, nos impede de enfrentar a vida e de responder à nossa vocação. Essa falta de paixão, de sensibilidade pode nos levar até o endurecimento da alma. É uma doença mortal, chamada de demônio do meio-dia. (Belfegor).

Quero ler, escrever, estudar, fazer um curso, mudar meu quarto, pintar a casa, arrumar meu jardim, costurar, bordar… mas no fim não faço nada e o dia passa por mim! Ao contrário dos outros pecados, que são o excesso, a acídia se caracteriza pela falta, pela ausência, pela inação, pelo comodismo!

Cassiano, em entrevista com o abade Serapião, ressalta a força da experiência:

“A tristeza e a acídia – ao contrário dos outros vícios de que falamos anteriormente – não costumam originar-se por uma motivação exterior. É sabido que com frequência afligem amarissimamente os solitários que vivem no ermo, longe do convívio dos homens. Isto é verdadeiríssimo e quem quer que tenha vivido nesta solidão e tem experiência dos combates do homem interior, facilmente o comprova nessas mesmas experiências”.

A acídia, como pecado capital, é a mesma e única base de duas atitudes contrárias: uma que leva à ação, ou melhor, a um ativismo (como veremos ao examinar as “filhas da acídia) e, por outro lado, a uma inação, em que acídia e preguiça se ligam, embora sejam muitos mais importantes – sobretudo para a análise do homem contemporâneo – as filhas da acídia ligadas ao ativismo.

São Gregório indica as filhas da acídia: desespero, pusilanimidade (mediocridade nas coisas espirituais), torpor, rancor, malícia, divagação da mente pelo ilícito, a amargura, a ociosidade e a sonolência relação aos preceitos, a inquietação do corpo, a procrastinação.

É um mal que afeta as jovens gerações em particular. Os jovens que encontro são muitas vezes caracterizados por falta de vontade, de convicção. Cada um não gostaria de estar ali, mas não consegue estar em outro lugar. Por outro lado, estamos constantemente imersos em ruído, mas a solidão nos paralisa. É o sinal de que a situação contemporânea é um atentado contra uma verdadeira humanidade.

Para vencer a acídia, é necessário entrar em relação com os outros, porque o encontro nos tira do nosso amor por nós mesmos. A vida comum, a solidariedade, a comunhão são remédios para a preguiça espiritual. A preguiça é a doença dos solitários. Uma vida de diálogo e de confronto com os outros é um bom antídoto.

Basta ir a um bar ou restaurante para ver jovens de 18 anos sentados juntos, mas cada uma na frente da tela do seu smartphone. Isso fala muito sobre a solidão em que estão imersos, apesar de sua aparente vida social. A vida contemporânea nega todos os vínculos frutíferos que existiam entre os homens.

Quando você tem um compromisso, um emprego, a tentação é menos forte do que quando você não tem nada para fazer. Na velhice, a tentação da apatia acaba retornando. Não se tem mais projetos de longo prazo. Então, é preciso encontrar no presente um sentido para viver dia a dia, lutar contra a preguiça espiritual na relação com os outros, nos encontros, sair do isolamento em que a velhice nos encerra.

O ativismo é uma maneira de esconder a acídia. Quando o trabalho nos absorve completamente, fazemos coisas uma após a outra sem deixar espaço para a liberdade. Então é preciso mudar o contexto de sua vida. Independentemente do estado de vida, se há lugares de silêncio onde seja possível ouvir a si mesmo em paz e se há uma capacidade de se relacionar com os outros, existem os meios para sair da apatia.

E tanto no fazer como no não-fazer, o tédio. Com incomparável lucidez, Fernando Pessoa, no Livro do desassossego diagnostica em seus múltiplos aspectos esse tédio; limitemo-nos a uma passagem que ressalta precisamente que o problema não está no trabalho nem no repouso, mas no centro do eu:

“O tédio… Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da ação; chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim”.

Há diversos graus de preguiça: a) O desleixado ou indolente não move a realizar sua tarefa senão com lentidão, moleza e indiferença. Tudo o que faz é mal feito. B) o ocioso não recusa inteiramente o trabalho, mas sempre atrasa, anda de um lado para outro sem fazer nada e adia indefinidamente a tarefa que havia se comprometido; c) o verdadeiro preguiçoso não quer fazer nada que canse e mostra notória aversão a qualquer trabalho sério do corpo e do espírito.

Acídia na Bíblia

Fruto de inação humana, a acídia como doença moral difere-se da depressão ou qualquer outra enfermidade que hoje a ciência já consegue diagnosticar. Para ser considerada um vício moral, a preguiça, ou a acídia, precisa ser caracterizada com decisão consciente de inação diante dos desafios da vida. É a incapacidade de assumir na vida a consciência de que somos colaboradores da criação, que Deus nos convida a ser com ele dispensadores de dons para a mudança do mundo. Essa tristeza consciente, que derruba os ânimos dos homens e mulheres, e os estanca nos caminhos da vida, tem a sua solução no embate espiritual e na oração.

Nesse sentido, a visita de Maria a Isabel reflete o oposto da acídia. Mesmo grávida, e com suas preocupações, Maria se dispõe a ajudar e faz isso imediatamente. É uma positividade imensa na colaboração com o outro. É o sair de si para que o outro seja capaz de superar-se.

Lemos em Provérbios que “A esperança que se retarda deixa o coração doente…”. Esse atraso da esperança é o combustível maléfico do coração preguiçoso, que teme arriscar-se por medo e falta de confiança (Provérbios 13,12).

Paulo vai falar em 2 Coríntios 7,10 de duas tristezas, a que vem de Deus, ou seja, o sinal de dor e arrependimento diante da apatia espiritual, e a tristeza do mundo, que leva à morte, justamente por conformar o pecador em acreditar que ele é incapaz de vencer os pecados e os vícios, e assim, o coloca numa situação de desânimo e inação.

O mesmo Paulo vai criticar também os que passam a vida à toa, desocupados e inaptos, “muito atarefados em nada fazer” (Cf. 2Ts 3,11). Esses nem deveriam receber o que comer!

Uma das passagens mais desoladoras da vida de Jesus é certamente sua agonia no Jardim das Oliveiras (Getsemâni). Ali Jesus sente tristeza e angústia, um misto de fraqueza humana e desolação espiritual. Aos apóstolos, Pedro, Tiago e João, que o acompanham, ele expressa sua tristeza dizendo: “A minha alma está triste até a morte; permaneçam aqui e vigiem comigo”. E depois, distanciando-se um pouco, prostrou-se com a face em terra e rezou: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Porem, não como eu quero, mas como tu queres!”. Depois retornou aos discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: “Assim vocês não foram capazes de velar uma só hora comigo? Vigiem e orem, para não caírem em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Nos impressiona a sinceridade desarmada de Jesus: ele, o Messias, arrebatador das turbas, aquele que havia dado esperança a milhares de pessoas, que havia feito milagres, que havia feito sentir o poder e o amor de Deus a todos os desesperados, agora não se envergonha de confessar a seus discípulos o seu estado de prostração, a sua aversão por aquilo que o espera: “A minha alma está triste até a morte”. Ver o seu Mestre naquele estado, com a moral por terra, devia produzir na alma dos discípulos um efeito devastador e de desconforto, paralisante. Mas Jesus os exorta a perseverar na oração, ainda quando não se tem vontade, abandonando-se ao desígnio do Pai e de sua bondade. A oração é fonte da forca para não cair em tentação: a carne é fraca. Aqui está a diferença da reação de Jesus e dos apóstolos: ele não se deixa vencer pelo demônio da acídia, reza e enfrenta a realidade, depositando-se todo nas mãos de Deus, enquanto os apóstolos cedem ao cansaço e dormem, exaustos e medrosos pelo futuro.

Atualizando

A tristeza pode (ou não) ser pecado, doença, estado de ânimo, atitude existencial ou combinações desses fatores. No entanto, quando Santo Tomás fala da acídia, de suas “filhas” e manifestações, está tratando da dimensão que mais lhe interessa como teólogo: a da tristeza moralmente culpável. Tomás de Aquino observa que o homem triste não pensa em coisas grandes e belas, mas só em coisas tristes, a menos que por um grande esforço; por isto, a acídia se opõe à esperança e à fortaleza. Existe uma boa tristeza pelos pecados, essa é a contrição; e uma má tristeza diante do bem espiritual: essa é a acídia.

O isolamento social (quarentena) durante a pandemia pode levar ao aumento da depressão, angústias, inquietações existenciais. O fato é que a tristeza também é uma poderosa força destruidora, convidando a (ou impondo) diversas compulsões: das drogas, ao jogo, do consumismo, vício em trabalho (workaholic) etc.

A necessidade de encontrar novos modos de comportar-se, relacionar consigo mesmo e com os outros pode gerar angústias, inquietações e grande tristeza. Quando, porém, sobrevém um momento de crise, só há duas possibilidades: ou o homem confia e espera, ou cairá no desespero. Para Santo Tomás de Aquino, a raiz do desespero pode ser encontrada na chamada “acídia” ou como costumamos falar na “preguiça”. O desespero fruto da acídia pode levar à falta de confiança em Deus, como afirma Ratzinger: “A preguiça metafísica de identificaria, portanto, àquela pseudo-humildade tão frequente nos dias de hoje: o homem não deseja acreditar que Deus se preocupa com ele, que o conhece e ama, que pousa nele seu olhar e lhe é próximo. Essa preguiça metafísica pode conviver com uma grande atividade na “ausência de Deus”.

Como vencer a tristeza interior?

Para vencer a acídia, portanto, é necessário resistir, ou seja, pensar nos bens espirituais e, assim, eles se tornam mais prazerosos para nós. E é isso o que se procura fazer na oração. Para superar a acídia não há outro caminho a não ser o de uma oração fiel, perseverante e humilde, que procura considerar os bens divinos.

Assim afirma RATZINGER: “Nos tempos de hoje, que privaram o homem da ânsia pela salvação e pelo pecado e, assim, supostamente o libertaram do medo, essas novas angústias vicejam e assumem, muitas vezes, a forma de psicoses coletivas: o medo do flagelo das grandes doenças que destroem o homem; o medo das consequências de nosso poderio técnico; a angústia do vazio e da falta de sentido da existência… Todas as angústias são máscaras do medo diante da morte, do susto diante da finitude da nossa existência. Quem ama a Deus sabe que só existe uma ameaça real para o homem: o perigo de perder Deus”.

É preciso criar no homem a “coragem de existir”, de aceitar e orientar o seu destino, no sentido do bem e de maneira responsável. É a plena realização humana da esperança que prefigura e prepara o advento da Esperança divina. A Esperança emerge, antes de tudo, como o dinamismo da vida. Ela é vivida antes de ser conhecida e é conhecida de maneira concreta, antes de ser pensada de maneira abstrata. Nutrir e reforçar a esperança é, antes de mais nada, oferecer bases e condições concretas de viver.

Vencendo a Acídia com a esperança laboriosa: Tudo vai ficar bem!

A esperança laboriosa e fortalecida pela graça de Deus brota das profundezas da terra, da vida, do ser humano e cresce para as alturas da Vida plena e eterna. A primeira forma de presença da esperança é ir aprendendo como “dar certo” na vida, e como dar sentido aos inevitáveis fracassos, dentro do processo de tentativas e erros. A esperança é uma certeza prática, “tudo vai ficar bem”, uma força que ajuda a viver, a superar as crises e a enfrentar os desafios.

O esperançoso é alguém que confia, que deseja e crê no real ainda não presente, mas que, na fé, é perfeitamente possível. A experiência psicossocial demonstra que o fato de ter uma esperança comum cria unidade entre os que “sonham o mesmo sonho”, e essa unidade reforça, por sua vez, a esperança. Renovar sempre mais as forças da esperança é imprescindível para a superação das atitudes desesperadas e de inativismo.

A Esperança que vem de Deus não aceita o “correr em vão” (1Cor 9, 26). Vai tendendo à felicidade divina e à felicidade humana. Agarra-se à certeza da presença Divina, presente pela força da graça, na existência de cada um e na história da humanidade. Esperar é comemorar.

Necessitamos da junção do “princípio de realidade” e da “confiança”, como que incondicional, na promessa, purificando assim a Esperança, vivendo-a na sua radicalidade cristã. É preciso justificar a esperança que há em nós (1Pd 3,15) e que não decepciona (Rm 5,5).

“A esperança é a última que morre”: é um provérbio orientador, fixado na consciência coletiva do povo. Esperar, para o cristão, nunca foi um acomodar-se. A esperança cristã possui um caráter de confiança em Deus que inclui um desejo e uma tendência em direção ao futuro. Cremos no amor de Deus por nós, que se manifesta na obra de salvação, por meio de Jesus Cristo no Espírito; e, por isso, acreditamos e esperamos.

Não há dúvidas de que se deve lutar sempre contra o pecado. Vencemos o pecado, porém, as vezes fugindo, as vezes resistindo. Fugindo quando a persistência do pensamento aumenta o incentivo ao pecado (esse é o caso da luxúria, que é vencida ao desviar o pensamento persistente e se afastando da ocasião de fornicar). Resistindo, por outro lado, através da reflexão profunda que tira todo incentivo ao pecado.

Para vencer a acídia, portanto, é necessário resistir, ou seja, pensar nos bens espirituais e assim eles se tornam para nós mais prazerosos. E é isso o que se procura fazer na oração. Para superar a acídia, não há outro caminho a não ser o de uma oração fiel, perseverante e humilde, a qual procura considerar os bens divinos.

Para finalizar, uma nota sobre o consumismo. A propósito do consumismo, Santo Tomás tem uma observação muito interessante e extremamente “moderna”: os bens naturais ordenam-se ao homem (e não ao contrário), e o dinheiro, por sua vez, serve apenas para a aquisição desses bens. Porém o dinheiro traz em si um perigo específico: ele imita falsamente a infinitude do verdadeiro bem supremo. O verdadeiro bem supremo sacia e afasta-nos dos bens materiais, ao contrário, os bens finitos nos consomem e nunca estamos satisfeitos.

Começa assim o famoso “ciclo vicioso”: o desespero leva-me ao consumo, que, mostrando-se insuficiente (e os bens de consumo mostram-se mais insuficientes quando são consumidos), leva a mais desespero e a mais consumo… E o mesmo se dá em relação às demais atividades movidas pela acídia. A acídia consiste em nos entediarmos com o bem espiritual, e dele procuram fugir, por não encontrarmos aí consolações sensíveis. Gerando assim uma tristeza espiritual. Quanto mais pensamos nos bens espirituais, tanto mais se nos tornam agradáveis, e isso faz cessar a acídia.

Fonte: Pe. Evaldo César de Souza, C.Ss.R