Cel. Fabriciano, 23 de abril de 2024

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02 mar
Imagem: bendicionescristianas

Obedecer a Deus ou aos meus desejos?

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No início da nossa caminhada quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos à “conversão”, a recolocar Deus no centro da nossa existência, a aceitar a comunhão com Ele, a escutar as suas propostas, a concretizar no mundo – com fidelidade – os seus projetos. Vamos falar da liturgia do primeiro domingo da quaresma:

Leituras:

Gn 2,7-9;3,1-7; Sl 50; Rom 5,12-19; Mt 4,1-11

A primeira leitura afirma que Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. No entanto, o homem escolhe muitas vezes o caminho do orgulho e da autossuficiência e vive à margem de Deus e das suas propostas. No relato do Gênesis, essa é a origem do mal que destrói a harmonia do mundo. Ao moldar o homem da terra, Deus não só define sua forma, mas insufla nele o “sopro da vida”. Somos criaturas amadas por Deus, criadas para a plenitude. Deus é a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia perdido numa galáxia qualquer; mas somos seres que Deus criou com amor, a quem Ele deu o seu próprio “sopro”, a quem animou com a sua própria vida. O fim último da nossa existência não é o fracasso, a dissolução no nada, mas a vida definitiva, a felicidade sem fim, a comunhão plena com Deus.

Mas a fraqueza e o orgulho permitiram que o mal falasse mais forte e nos afastasse do Senhor. Deus nunca quis o mal, mas o homem o permitiu em sua liberdade. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado. Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, prescindindo das indicações de Deus? Com isso, retoma-se a luta incessante de retorno ao Senhor, luta na qual será decisiva a chegada de Jesus, o “Caminho” que nos reconduz ao colo de Deus.

Por isso Paulo, na segunda leitura, propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus e que vive na obediência aos projetos do Pai.

Porque a humanidade preferiu, tantas vezes, esse caminho adâmico é que o mundo entrou numa economia de pecado; e o pecado gera morte. A morte deve ser entendida, neste contexto, em sentido global – quer dizer, não tanto como morte físico-biológica, mas sobretudo como morte espiritual e escatológica que é afastamento temporário ou definitivo de Deus (a fonte da vida autêntica).

Cristo propôs um outro caminho. Ele viveu numa permanente escuta de Deus e das suas propostas, na obediência total aos projetos do Pai. Esse caminho leva à superação do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em comunhão com o Deus que é fonte de vida autêntica. Cristo libertou os homens da economia de pecado e introduziu no mundo uma dinâmica nova, uma economia de graça que gera vida plena (salvação).

O Evangelho apresenta o modo como Jesus introduz a graça de novo no mundo: ele o faz recusando as seduções do pecado e do mal. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à margem de Deus e dos seus projetos. Toda a tentação de ignorar Deus e as suas propostas é uma tentação diabólica e que o cristão deve, firmemente, rejeitar. O relato que hoje nos é proposto não é, contudo, uma reportagem histórica elaborada por um jornalista que presenciou um combate teológico entre Jesus e o diabo. É, sim, uma página de catequese, cujo objetivo é ensinar-nos que Jesus, apesar de ter sentido – como nós – a força das tentações, soube pôr acima de tudo o projeto do Pai.

Jesus supera a tentação do prazer, do prestígio e do poder. No fundo todas as tentações são uma só: querer colocar-se no centro e no lugar de Deus. É o mal do orgulho. Jesus supera o mal porque está pleno do Espírito de Deus, que ele recebera no batismo. Mesmo no deserto, lugar do embate espiritual, ele não cede pois o Espírito o orienta a fazer uso firme da Palavra de Deus contra as forças do mal.

A questão essencial que a Palavra de Deus hoje nos propõe é, portanto, esta: Jesus recusou, de forma absoluta, conduzir a sua vida à margem de Deus e das suas propostas. Para Ele, só uma coisa é verdadeiramente decisiva e fundamental: a comunhão com o Pai e o cumprimento obediente do seu projeto.

E nós, seguidores de Jesus? É essa também a nossa perspectiva? O que é decisivo na minha vida: as propostas de Deus, ou os meus projetos pessoais? Eu cedo ao amor de Deus ou prefiro dar vazão ao meus desejos mesquinhos e egoístas? No fundo, tudo é uma questão de liberdade, onde obedecer a Deus não e submeter-se a Ele mas entender que somente com Ele seremos plenos e verdadeiramente humanos.

Fonte: Padre Evaldo César , CSSR