Cel. Fabriciano, 14 de julho de 2024

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09 abr
Imagem: Internet

Gula e Temperança: reflexões sobre pecado e graça!

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Sete Semana com Jesus/ 2021

Pecados Capitais/ Virtudes capitais

Semana 01 – Gula X Temperança

Fl 3,17-20 – “Cuidado com os inimigos de Cristo, cujo deus é o ventre”.

Etimologia

Gula: goela, garganta;

Glutonaria: que come muito e rapidamente;

Gastrimargia: loucura pelas coisas do estômago.

Citações

“Aprenda a ingerir os alimentos com se fossem remédios”(Agostinho).

“Uma barriga cheia prejudica a mente”(Catarina de Sena).

“A verdadeira felicidade é impossível sem verdadeira saúde, e a verdadeira saúde é impossível sem o rigoroso controle da gula. Todos os demais sentidos estarão, automaticamente, sujeitos ao controle quando a gula estiver sob controle”(Ghandi).

O que é a gula?

Um dos pecados capitais, a gula, como os outros sete, é a raiz de uma série de outros vícios, por isso é chamado de pecado capital (caput). Gula é uma paixão escravizante – consentida pelo prazer imediato que me dá, mas sem perceber os traumas que vão se instalando.

Podemos dizer que a gula é o nome dado ao comportamento de quem come além da conta, mas que o necessário e o desejável; guloso é o que faz da comida um fim em si mesmo, e não um meio de sobrevivência e relacionamento (sentar-se a mesa para partilhar a vida e não para devorar coisas como animais); a gula é a porta de entrada para muitos outros males, que destroem o pecador e interfere nas suas relações (sono, preguiça, bufonaria, escravidão, desperdícios, falta de controle financeiro com gastos desnecessários). Sendo algo que toca ao exagero, a gula tem consequências de ordem moral e de ordem física, pois destrói também a saúde de quem é guloso.

A gula tem a ver com o descontrole do apetite, falta de senso em perceber a real necessidade de alimentação do corpo. Nesse sentido, qualquer coisa que eu tento colocar em excesso dentro de mim, para satisfazer o vazio que sinto de Deus, é atitude gulosa: comida, álcool, drogas, sexo, dinheiro, excesso de atividades. Querer abraçar o mundo com as pernas – gula do tempo! Preencher todo o tempo sem dar espaço para a “digestão” do cansaço e dos pensamentos.

Gula social: estar antenado com tudo tempo todo! (séries. Programas; novidades tecnológicas, tendências, etc…)

Ela é um impedimento para tantas outras fomes que dinamizam o ser humano nas relações de alteridade. Não há mais espaço para a fome de amor, de justiça, de perdão, de Deus. A gula nos encerra numa vida desenfreada e em busca da satisfação dos

prazeres mais imediatos. Quanto mais se come, mais se quer comer. Quanto mais se possui, mais se quer possuir. Quanto mais se goza, mais se quer gozar. Nunca se está satisfeito. Desse modo, percebemos que a gula não está somente relacionada ao abuso do uso do alimento, a gula pode ser pelo carro mais novo, pelo celular mais novo, pelo cargo de maior prestígio, pelo maior salário, pelo sexo irresponsável, etc.

A glutonaria faz da comida o seu deus, seu ídolo, e encontra por isso, mil desculpas para tentar convencer-se de que está em paz consigo mesmo. Muitas vezes preocupamo-nos com os vícios das drogas e do álcool, mas o glutão é tão necessitado de redenção quanto esses outros.

Nas Instituições, do monge cristão Cassiano (420), a gastrimargia foi definida como a concupiscência da comida. Sua natureza seria tripla: comer fora do horário fixado para a refeição, alimentar-se com avidez e se deleitar com pratos bem preparados e suculentos. O combate deveria ser contra o alimento supérfluo, nunca em favor da privação completa da comida. Afinal, a alimentação seria necessária à natureza. A orientação de Cassiano era de que o monge tentasse ordenar o curso da sua vida de modo que a atenção do espírito jamais fosse desviada mais do que quando a fragilidade do corpo demandasse cuidados especiais.

Primeiro bocado: sobriedade – sensação de que posso comer um pouco mais;

Segunda bocado: saciedade – sensação de que comi o suficiente

Terceiro Bocado: gula – sensação de que comi muito além do necessário.

Não é errado gostar de se alimentar nem querer comer boa comida. Deus fez-nos com essa necessidade e deu-nos o paladar para desfrutarmos dos diferentes sabores e alimentos que Ele fez. A alimentação é uma benção quando a fazemos para a glória de Deus. O problema é quando fazemos o MAL com o bem que Deus nos dá.

Algumas referências bíblicas

– 1Coríntios 10,31 – “quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, façais tudo para a glória de Deus”.

– Ver também os excessos na Ceia do Senhor, 1Cor 11,17-22)

– Lembre-se que o Povo de Deus queixava-se a Moisés pelo alimento dado por Deus, o maná da liberdade (temperança), e desejava voltar a escravidão pois no Egito tinha comida em excesso (gula) (Nm 11,4-6); banquetes reais eram geralmente causa de exageros e pecados (Dn 5)

– Quando quiseram difamar Jesus o acusam de glutão e beberrão (Mt 11,18-19)

O tentador também apela ao desejo da comida para tentar Jesus no Deserto (Mt 4,3-4

A gula no dia-a-dia

Alguns maus hábitos viciosos ligados à comida:

1. Comer demais;

2. Não pensar nos outros na hora de servir-se;

3. Comer escondido para não repartir ou para quebrar regras (religiosas ou médicas)

4. Desperdiçar alimento;

5. Não ter horário para comer, ficar beliscando toda hora;

6. Comer para conter ansiedade;

7. Exibir-se com refeições exóticas e sofisticadas por vaidade (moral e financeiro)

Mundo de hoje nos traz excesso de comida, propaganda consumista e liga nossa satisfação humana de felicidade muitas vezes com hábitos alimentares (basta ver o sucesso dos programas de culinária).

A televisão transmite uma variedade imensa de programas culinários onde, em uns, pessoas (e até crianças) disputam o status de melhor chef de cozinha, melhor confeiteiro, melhor churrasqueiro, etc.; em outros, apresentadores viajam pelo mundo em busca de experiências gastronômicas; em outros ainda, famosos ensinam suas receitas prediletas. Na internet, com suas respectivas redes sociais, circulam a todo instante fotos, vídeos e propagandas de receitas culinárias, quitutes diversos, menus de restaurantes, bares e inúmeros fastfood. Somos “bombardeados” com o incentivo do hedonismo glutônico, que condiciona o nosso paladar a sempre querer o alimento mais prazeroso e a desprezar o comum, em um mundo onde muitos não têm opção ou mesmo o menor e mais básico dos “prazeres gastronômicos”: saciar a fome!

Não é sem razão que diante de uma bela refeição a gente exclama: que tentação, hoje eu peco pela gula! Sabemos muito bem quando vamos cometer excessos, e ainda assim, os cometemos sem consciência de que estamos sendo contrários a espírito cristão.

Existem alguns problemas sérios ligados o descontrole da nutrição, que envolvem questões psíquicas:

Bulimia – comer e arrepender-se;

anorexia – não comer;

vigorexia – achar que nunca está fisicamente perfeito;

Obesidade mórbida;

O outro lado: a virtude da temperança

Temperança: equilíbrio no comer e beber/ equilíbrio nas ações/ tempero é aquilo que deve ser colocado na medida certa, para ressaltar o sabor. Exagerar no tempero estraga a comida! O cultivo do domínio próprio, pela exortação do Espírito Santo, é o caminho para superar o vício da gula.

A virtude da temperança leva a pessoa a cuidar de seu corpo, sabendo que o corpo, templo do Espírito, é bom e agradável ao Senhor, já que Ele o criou, mas que deve ser cuidado de forma a bendizer ao Criador, e não para satisfação momentânea e para prazeres ilimitados e vazios.

O controle da gula é o primeiro passo para o controle de vícios mais difíceis. Por isso, é preciso força de vontade e graça de Deus para que sejam superadas as tendências a glutonarias.

Jejum e abstinência são remédios espirituais para a gula: controle do corpo, domínio das paixões e da ansiedade.

Rezar antes das refeições, sempre! Esse gesto mostra que teremos um relacionamento divino com o alimento nos dado por Deus, e não seremos animais diante de uma cocheira.

Partilhar o alimento como forma de oferecimento aos irmãos de uma parcela do que Deus me concedeu. Já no ato de compra, pensar no que será doado, e não comprar a mais para doar, mas doar daquilo que normalmente seria para consumo de casa.

José Américo de Almeida (A Bagaceira): “Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã”. A minha gula é a miséria de muitos de nossos irmãos! Miséria maior do que morrer de fome por não ter o que comer é comer e se satisfazer excessivamente sem se importar com a dor e o sofrimento do outro. A gula promove a miséria humana que isola e mata.

Fonte: Pe. Evaldo César de Souza, CSSR

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