Cel. Fabriciano, 29 de novembro de 2020

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26 out
Imagem: Dom Total

Desburocratizar a santidade: uma reflexão sobre o caso do beato Carlo Acutis

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Nas últimas semanas, muitas postagens foram aparecendo e viralizando nas redes sociais, falando a respeito da beatificação do adolescente italiano Carlo Acutis, morto aos quinze anos, vítima de uma leucemia. Para muitos, essa questão que marcou a internet foi a ocasião para que pudessem conhecer a história de Carlo – inclusive este que aqui escreve. A beatificação é a etapa anterior à canonização, quando uma pessoa é reconhecida santa pela Igreja e introduzida nos altares, como se costuma dizer. Motivo de alegria e entusiasmo para católicos, a declaração de santidade de uma pessoa acaba sendo vista com críticas nos meios protestante e evangélico. Essa ainda é uma questão a que é preciso se debruçar, quando se há interesse no diálogo ecumênico, por exemplo.

Não apenas em vista do diálogo ecumênico, efetivar uma nova compreensão e prática de reconhecimento de santidade por parte da Igreja é importante, também por outros motivos teológicos. Aqui, queremos, de alguma forma, determo-nos na questão escatológica envolvida nessa discussão, com ênfase nas consequências disso para a vida e testemunho cristãos. Desde o século passado, a teologia cristã avançou muito na reflexão escatológica. Mas essa reflexão, que se tornou mais teologicamente plausível e melhor burilada, sem os exageros e extravagâncias medievais, ainda não encontrou lugar na prática pastoral do catolicismo. Há, portanto, uma distância muito considerável entre a compreensão teológica da escatologia atual e o imaginário que permeia a pastoral.

Toda a burocracia presente no processo de canonização incide, sobremaneira, na prática pastoral que tenha aspecto escatológico de fundo e, inclusive, na maneira como os fiéis passam a compreender a santidade. O pontificado de João Paulo II foi um que se destacou na história moderna do catolicismo, pelo número significativo de canonizações feitas. Isso fez com que os fiéis passassem a acompanhar e a se envolver mais nessas questões, o que é deveras positivo. No entanto, a burocracia à qual nos referimos traz dificuldades pastorais. Em primeiro lugar, importa ressaltar o custo financeiro altíssimo envolvido no processo, o que acaba por fazer que apenas clérigos, sobretudo os membros de congregações religiosas, bem como freiras tenham seus processos sendo conduzidos de forma mais ágil. Nesse aspecto, leigos e leigas são os que menos aparecem nos altares: não pelo fato de estes não alcançarem a santidade, mas por não ter quem dê conta de arcar com o processo. Na prática, a impressão popular que provoca, é a de que a santidade seja possível apenas a quem dedica sua vida de modo integral à vida da igreja, aqui entendida do ponto de vista institucional.

A questão financeiro-econômica não é a única. Parte da burocracia é contar com a comprovação de milagres, ligados à intercessão que se acredita ter sido feita pelos possíveis santos. Isso tem toda uma seriedade, que envolve cientistas, inclusive. Onde, estaria, afinal, o problema? Ora, o caminho pelo qual a compreensão do que seja milagre enveredou, no catolicismo, sobretudo o popular, é o de que ele é entendido como uma ação praticamente antinatural de Deus, em nosso favor; algo que não é explicado a partir das leis da natureza. Essa é uma compreensão que se distancia radicalmente do entendimento bíblico do que seja milagre. Fará bem ao cristianismo, como um todo, que ressignifiquemos, biblicamente, nossa compreensão sobre a ação da graça de Deus em nossa vida, o que chamamos de milagre.

Um outro ponto que merece destaque em nossa reflexão é sobre a investigação feita, ao longo do processo, da vida dos candidatos aos altares. Essa é uma parte muito importante do processo, pois é onde, realmente, percebe-se de que modos os candidatos foram conformados, em sua vida, à vida de Jesus Cristo, encarnando, verdadeiramente, o discipulado cristão. Contudo, essa investigação não deve anular ou rechaçar as ambiguidades presentes na vida de toda e qualquer pessoa humana. Santidade não é perfeição, no sentido usual que atribuímos a esta palavra em nossa linguagem corriqueira. Considerar, pois, que a existência no mundo e na história está permeada de ambiguidades e também de descaminhos, não apaga a santidade de uma pessoa. Muito pelo contrário: levar em conta essas ambiguidades e perceber que, apesar delas, a pessoa viveu santamente, só revela o quanto a santidade é possível e desejável para todos nós, que nos pretendemos seguidores e seguidoras de Cristo.

Toda essa burocracia acaba por trazer consequências pastorais efetivas, no que diz respeito ao imaginário escatológico dos fiéis, ainda muito marcado por um imaginário medieval. A dificuldade que se tem, para o reconhecimento oficial da santidade de alguém, acaba reforçando um imaginário de que a vida além desta vida, isto é, a eternidade, está marcada pelas mesmas situações espaciais e temporais que as nossas: é como se aqueles e aquelas que são reconhecidos como santos e santas ocupassem já um lugar no paraíso; enquanto os outros falecidos e falecidas, que não alcançaram essa marca de santidade, esperassem no purgatório, a sentença de seu destino eterno. A compreensão dos elementos tradicionais que compõem a discussão da escatologia cristã (tais como juízo particular, purgatório, juízo final, céu e inferno), em nossa prática eclesial, precisa se libertar de um imaginário calcado nas dimensões de espaço e tempo, para que sejam assimiladas em sua dimensão existencial. A maneira como compreendemos a santidade e o reconhecimento daqueles e daquelas que mais se aproximaram desse ideal pode, e muito, ajudar a uma ressignificação do imaginário escatológico dentre nossos fiéis.

Com tudo isso, não queremos defender a ideia de que o processo para o reconhecimento da santidade de uma pessoa não tenha critérios rigorosos de percepção de como viveu o seguimento de Cristo. O que precisamos é que a santidade seja assumida como palpável em nossa existência cristã, e não um ideal apenas possível para algumas pessoas. A maneira como a Igreja reconhece seus santos e como os veneram, pode ajudar nessa compreensão, o que, afinal, é a finalidade de se reconhecer os santos e santas. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, retoma essa importante reflexão, quando tão belamente se dedica a nos exortar à santidade em nosso mundo atual. Sobre o olhar a respeito da santidade, ele diz: “Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus […]” (n. 6).

O que estamos a acompanhar do processo de canonização de Carlo Acutis pode ser compreendido como boa oportunidade de ajudar os cristãos e cristãs a se atentarem para aquilo que realmente importa e que é significativo: a maneira como se é possível colocar a vida, de modo autêntico, a serviço do Reino de Deus, no seguimento de Jesus Cristo. Atentarmo-nos para a concretude da vida de pessoas tal como Carlo, evitando o fascínio pelo que soa mágico ou antinatural, é um caminho pedagógico de grande inspiração, a que, também nós, coloquemos nossa vida em comunhão com a vida de Jesus, nosso Cristo morto-ressuscitado!

Fonte: Felipe Magalhães Francisco/Dom Total

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