Cel. Fabriciano, 20 de outubro de 2020

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17 jul
Imagem: internet

A Galileia em São Marcos: geografia ou teologia?

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Quando nos debruçamos sobre alguns conceitos expressos nos evangelhos, somos surpreendidos por uma largueza de significados que são muito mais profundos do que uma primeira impressão. Um desse conceitos é o sentido da Galileia, que geograficamente refere-se ao norte da Palestina, região mais rural e marcada pela economia que circulava nas cidades e povoados ao redor do Mar da Galileia (que na verdade é um grande lago de água doce!). Vamos olhar a Galileia somente no evangelho de Marcos, e isso já é suficiente para nos trazer muitas e novas informações bíblico-catequéticas.

A Galileia está, em Marcos, em contraste direto com Jerusalém. Ao norte está a Galileia, região rural, a periferia da Palestina, o lugar de gente comum e simples. De outro lado, ao sul, temos a cidade santa Jerusalém, centro do poder e da concentração religiosa e econômica da Palestina, sede dos governos e do Templo. Essa oposição, como se vê, entre norte e sul, assume um sentido muito mais profundo do que apenas o aspecto geográfico – Marcos pretende mostrar dois modos de compreender a mensagem de Jesus.

Logo no início do seu evangelho, Marcos faz questão de afirmar que “naqueles dias veio Jesus de Nazaré, da Galileia, e foi batizado por João no Rio Jordão” (Mc 1,9). Com isso, Marcos mostra que a manifestação do amor de Deus em Jesus não parte do centro religioso, mas da periferia do país. Será pelas trilhas e veredas da Galileia, ao redor do Mar da Galileia, que Jesus primeiro irá proclamar “que completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Fazei penitência e crede na Boa-Nova” (Mc 1,15).

A Galileia vai aos poucos acolhendo a Palavra, pois os mais pobres e humildes, que ali vivem isolados e distantes do centro do poder religioso – o Templo de Jerusalém – estão mais abertos à novidade do amor que Jesus apresenta. Na Galileia Jesus vai arrebanhar seus primeiros apóstolos, pescadores simples e humildes. Na Galileia ele vai curar doentes, resgatar oprimidos, dar dignidade aos que estão feridos pelas regras da exclusão religiosa e cultural. O Reino de Deus vai sendo apresentado e acolhidos pelos pequeninos.

Mas será Jerusalém – o centro do poder –  o lugar do enfrentamento final e decisivo com as forças da morte. Jesus não se esquiva de Jerusalém, mas ali, ao contrário do que indica o nome (Jerusalém = cidade da paz), Jesus só vai encontrar resistência, perseguição e morte (Mc 11,18). Nesse centro de poder Ele será julgado, condenado injustamente e crucificado. Dentro dos muros da cidade sagrada, que deveria ser fonte de vida, Jesus só encontra a morte, pois os poderes constituídos não aceitam uma mensagem que possa colocar os pobres e sofredores em um lugar de destaque. O status quo do poder religioso abomina a ideia da partilha e da igualdade.

Por isso, em Marcos, já na Santa Ceia, de modo profético (Mc 14,28), e após a Ressurreição, pelas palavras do jovem que aparece às mulheres (Mc 16,6-7), fica muito claro que o caminho dos seus seguidores deve começar na Galileia. Será na Galileia que o Ressuscitado se fará presente. O caminho que começou na Galileia precisa ser agora refeito pelos que decidem caminhar com Jesus. Quem não parte da Galileia jamais terá coragem de enfrentar Jerusalém! A Galileia é a verdadeira sementeira do discipulado, o local onde começa a caminhada dos que desejam trilhar os caminhos de Jesus Cristo. Quem não parte dos pobres jamais irá entender Jesus. Triste dos que vivem sua vocação à sombra de Jerusalém e se coaduna com os poderes da morte!

Fonte: Pe. Evaldo César de Souza, CSSR

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